Custeio por absorção x custeio variável: qual usar para decidir preço

Neto Concon13 min de leitura

Custeio por absorção x variável: o número 2 em destaque: lucros para o mesmo mês

Custeio por absorção é o método que leva para o custo de cada produto todos os custos da produção, inclusive os fixos, como aluguel da fábrica, depreciação de máquinas e salários da supervisão. Custeio variável é o método que leva para o produto só os custos que variam com o volume e trata os custos fixos como despesa do período. O primeiro é o exigido na contabilidade e no fisco. O segundo é o que mostra a margem de cada produto para decidir preço e mix.

Este guia explica os dois métodos, as diferenças entre custeio por absorção e custeio variável, e mostra com um exemplo numérico como o mesmo mês pode ter dois lucros diferentes, conforme o método. Depois mostra qual usar em cada decisão, com um pedido que o custeio por absorção manda recusar e o custeio variável manda aceitar.

O que é custeio por absorção

No custeio por absorção, o produto “absorve” todos os custos de produção. Entram os custos diretos, que se identificam com cada produto, como matéria-prima, embalagem e mão de obra direta, e os custos indiretos de fabricação, que são da fábrica como um todo e precisam ser distribuídos entre os produtos por algum critério de rateio, como horas-máquina, horas de mão de obra ou volume produzido.

Ficam de fora as despesas: administrativas, comerciais e financeiras. Elas vão direto para o resultado do período em que acontecem. O custo por absorção de cada unidade, portanto, é o custo variável de produção mais a parcela de custo fixo de fábrica que coube a ela no rateio.

É o método aceito pela legislação brasileira e pelas normas contábeis (o CPC 16, que trata de estoques) para avaliar os estoques e apurar o lucro no balanço e no imposto de renda. Por isso toda indústria tem um custeio por absorção, mesmo que ninguém na diretoria olhe para ele.

O que é custeio variável

O custeio variável, também chamado de custeio direto, separa os gastos pelo comportamento em relação ao volume. O produto recebe só os custos que crescem com cada unidade produzida: matéria-prima, embalagem, energia de máquina, comissão, frete e impostos sobre a venda. Os custos fixos, de fábrica ou de escritório, não são distribuídos entre os produtos. Eles são tratados como o custo de manter a empresa aberta no mês.

A fórmula do custeio variável chega à margem de contribuição:

Margem de contribuição = receita − custos variáveis − despesas variáveis

Resultado = margem de contribuição − custos fixos − despesas fixas

A margem de contribuição diz quanto cada produto, cliente ou pedido deixa para pagar a estrutura e formar o lucro. Como não depende de rateio, ela não muda quando outro produto vende mais ou menos. Por isso o método de custeio variável é o preferido para decisão, mas não é aceito para o balanço nem para o fisco: ele deixa os custos fixos de produção fora do estoque.

Custeio por absorção e custeio variável: as diferenças

Custeio por absorção Custeio variável
O que vai para o produto Todos os custos de produção, fixos e variáveis Só os custos e despesas variáveis
Custos fixos de fábrica Rateados entre os produtos e parte fica no estoque Despesa do período, inteira
Indicador principal Lucro bruto e margem bruta Margem de contribuição
Depende de rateio Sim Não
Lucro muda com o volume produzido Sim, mesmo sem vender mais Não, só com o volume vendido
Aceito no balanço e no fisco Sim Não
Para que serve Contabilidade, estoques, impostos Preço, mix, desconto, aceitar ou recusar pedido

No custeio por absorção, a DRE mostra o lucro bruto e a margem bruta. No custeio variável, a DRE gerencial mostra a margem de contribuição antes dos custos fixos. Os dois métodos convivem na mesma empresa: um para prestar contas, outro para decidir.

Exemplo: o mesmo mês, dois lucros

Uma indústria fabrica um produto vendido a R$ 100. O custo variável de produção é de R$ 40 por unidade e as despesas variáveis de venda, de 10% do preço. Os custos fixos da fábrica somam R$ 300 mil por mês e as despesas fixas administrativas e comerciais, R$ 100 mil. A empresa vende 10.000 unidades por mês.

Mês 1: produz 10.000 e vende 10.000. No custeio por absorção, o custo fixo por unidade é R$ 300 mil ÷ 10.000 = R$ 30, e o custo de cada unidade é R$ 70. Os dois métodos chegam ao mesmo lucro:

Mês 1 (R$ mil) Absorção Variável
Receita 1.000 1.000
Custo dos produtos vendidos (700) (400)
Despesas variáveis de venda (100) (100)
Margem de contribuição não mostra 500
Custos fixos de fábrica já no custo (300)
Despesas fixas (100) (100)
Lucro 100 100

Mês 2: produz 15.000 e vende as mesmas 10.000. As outras 5.000 vão para o estoque. No custeio por absorção, o mesmo custo fixo de R$ 300 mil agora se divide por 15.000 unidades, e o custo de cada uma cai para R$ 60:

Mês 2 (R$ mil) Absorção Variável
Receita 1.000 1.000
Custo dos produtos vendidos (600) (400)
Despesas variáveis de venda (100) (100)
Custos fixos de fábrica já no custo (300)
Despesas fixas (100) (100)
Lucro 200 100
Estoque das 5.000 unidades 300 200

A empresa vendeu exatamente o mesmo, pelo mesmo preço, e o custeio por absorção mostra o lucro dobrando. Os R$ 100 mil de diferença não são lucro: são custo fixo do mês que foi para o estoque junto com as 5.000 unidades e só vai aparecer no resultado quando elas forem vendidas. O custeio variável mostra o que de fato aconteceu: a operação continua gerando R$ 100 mil por mês.

É por isso que, numa indústria com estoque oscilando, o lucro contábil e a sensação da diretoria muitas vezes não batem. Produzir para estoque melhora o resultado do mês no custeio por absorção, consome caixa e não melhora em nada a margem dos produtos.

Qual usar para decidir preço

Na mesma indústria, num mês de 10.000 unidades e com capacidade ociosa na fábrica, um cliente novo oferece um pedido de 2.000 unidades a R$ 65, de uma região onde a empresa não vende hoje.

  • Pelo custeio por absorção, o custo da unidade é R$ 70. Vender a R$ 65, mais R$ 6,50 de despesa variável, parece dar prejuízo de R$ 11,50 por unidade. A decisão seria recusar.
  • Pelo custeio variável, cada unidade custa R$ 40 de produção e R$ 6,50 de venda. Sobra uma margem de contribuição de R$ 18,50 por unidade, ou R$ 37 mil no pedido. Os custos fixos já estão pagos pelas 10.000 unidades normais e não aumentam. A decisão seria aceitar, e o lucro do mês sobe de R$ 100 mil para R$ 137 mil.

O custeio por absorção erra aqui porque trata o custo fixo rateado como se fosse gasto a mais em cada unidade. Ele não é: a fábrica custa R$ 300 mil com ou sem esse pedido.

O cuidado é o limite dessa lógica. Ela vale para volume adicional, com capacidade sobrando, sem estragar o preço dos clientes atuais. Se todo pedido fosse vendido a R$ 65, a margem de contribuição total não pagaria os custos fixos, e a empresa ficaria abaixo do ponto de equilíbrio. A regra prática: o custeio variável diz se um pedido, um desconto ou um produto vale a pena. A soma das margens de contribuição precisa cobrir a estrutura, e é isso que o preço de tabela, calculado pelo markup, garante.

Os outros métodos de custeio

Além dos dois, três outros métodos aparecem com frequência na indústria:

Método Como funciona Quando usar
Custeio ABC Distribui os custos indiretos pelas atividades que cada produto consome, como setup, inspeção e pedidos de compra Muitos produtos com processos diferentes, em que o rateio por volume distorce o custo
Custo padrão Define quanto cada produto deveria custar e compara com o custo real todo mês Controle de eficiência da produção e de variação de insumos
RKW Rateia todos os custos e despesas, inclusive administrativos e comerciais, entre os produtos Pouco recomendado para decisão: acumula todos os problemas do rateio

O custeio ABC é muitas vezes confundido com a curva ABC, que classifica produtos e clientes pela participação no faturamento ou na margem. São coisas diferentes, mas se encontram: uma curva ABC pela margem só é confiável se o custo de cada produto for confiável.

Os erros mais comuns

  • Decidir preço pelo custo por absorção. O custo rateado muda com o volume. Um produto parece caro quando a fábrica produz pouco e barato quando produz muito, sem que nada mude nele.
  • Cortar um produto que “dá prejuízo” no rateio. Se ele tem margem de contribuição positiva, cortá-lo não elimina o custo fixo que ele carregava. O custo passa para os outros produtos e o lucro total cai.
  • Classificar errado o que é fixo e o que é variável. Mão de obra direta com salário fixo, por exemplo, só é variável se a equipe de fato cresce e diminui com o volume. Classificação errada contamina a margem de contribuição.
  • Esquecer as despesas variáveis de venda. Comissão, frete e impostos sobre a venda são variáveis e mudam de pedido para pedido. O custeio variável que olha só a fábrica superestima a margem.
  • Comemorar lucro de mês com estoque crescendo. No custeio por absorção, parte do lucro é custo fixo guardado no estoque.

Quando a planilha deixa de dar conta

Na maioria das indústrias médias, o custeio por absorção vem pronto da contabilidade, e o custeio variável vive numa planilha que alguém monta para responder uma pergunta da diretoria. Ela fica desatualizada na primeira alta de matéria-prima, não tem as despesas de venda de cada pedido e não conversa com o ERP. Quando surge um pedido como o do exemplo, a resposta sai do feeling do comercial.

O que a diretoria quer é responder na hora se um pedido, um desconto ou um cliente paga a empresa. Isso acontece quando a margem de contribuição é calculada no próprio pedido, com o custo variável atual e as condições daquele pedido, e o custeio por absorção continua cuidando do balanço, sem misturar as duas coisas. A passagem da planilha para esse tipo de painel está em da planilha ao dashboard.

Por onde seguir

O custeio variável termina na margem de contribuição, que é o número para decidir preço, mix e desconto. Para saber quanto é preciso vender para pagar os custos fixos, o ponto de equilíbrio. Para formar o preço de tabela, a precificação de produtos, o markup e a diferença entre markup e margem. Para ver quais produtos e clientes pagam a empresa, a curva ABC feita pela margem. E para as margens da DRE contábil, margem bruta e margem líquida.

Perguntas frequentes

O que é custeio por absorção?

É o método de custeio que leva para o custo de cada produto todos os custos de produção, os variáveis e os fixos da fábrica, como aluguel, depreciação e supervisão. Os custos indiretos são distribuídos entre os produtos por rateio. As despesas administrativas, comerciais e financeiras ficam de fora e vão direto para o resultado. É o método aceito no balanço e no imposto de renda.

O que é custeio variável?

É o método que leva para o produto só os custos e despesas que variam com o volume, como matéria-prima, embalagem, comissão, frete e impostos sobre a venda. Os custos fixos não são rateados: são tratados como despesa do período. O resultado é a margem de contribuição de cada produto, usada para decidir preço, mix e desconto.

Qual a diferença entre custeio por absorção e custeio variável?

No custeio por absorção, os custos fixos de fábrica são rateados entre os produtos e parte deles fica no estoque. No custeio variável, eles são despesa do período, inteira. Por isso, na absorção o lucro muda com o volume produzido, mesmo sem vender mais, e no variável só muda com o volume vendido. A absorção serve à contabilidade; o variável, à decisão.

Qual a fórmula do custeio variável?

A margem de contribuição é a receita menos os custos variáveis e as despesas variáveis. O resultado do período é a margem de contribuição menos os custos fixos e as despesas fixas. Por unidade, a margem de contribuição é o preço menos o custo variável unitário e as despesas variáveis daquela venda.

Por que o custeio variável não é aceito pelo fisco?

Porque ele deixa os custos fixos de produção fora do valor do estoque. As normas contábeis brasileiras, como o CPC 16, e a legislação do imposto de renda exigem que o estoque inclua os custos de produção, fixos e variáveis. Por isso a empresa usa o custeio por absorção no balanço e pode usar o custeio variável na gestão.

Qual método usar para formar preço?

Para decidir se um pedido, um desconto ou um produto vale a pena, o custeio variável, porque a margem de contribuição não depende de rateio. Para o preço de tabela, a empresa precisa garantir que a soma das margens cubra os custos fixos e o lucro desejado, o que o markup sobre o custo variável, com o percentual de despesas fixas, faz.

Por que o lucro sobe quando a fábrica produz mais do que vende?

No custeio por absorção, o custo fixo do mês é dividido entre todas as unidades produzidas. Quando sobra estoque, parte desse custo fixo vai junto com as unidades estocadas e sai do resultado do mês. O lucro aparece maior sem nenhuma venda a mais. A diferença volta ao resultado quando o estoque é vendido.

Quais são os métodos de custeio?

Os principais são o custeio por absorção, exigido na contabilidade; o custeio variável, usado para decisão; o custeio ABC, que distribui custos indiretos pelas atividades; o custo padrão, que compara custo previsto e real; e o RKW, que rateia todos os custos e despesas entre os produtos e é pouco recomendado para decidir.

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