Durante décadas, a regra prática da inteligência artificial foi esta: cada modelo serve para uma coisa. Um modelo que reconhece rosto não traduz texto, um que traduz texto não recomenda produto, e tentar usar um fora do domínio em que foi treinado só produzia resposta ruim. Essa regra organizava tudo, inclusive a decisão de investir: você não comprava IA, você comprava um modelo para uma tarefa.

Essa regra caiu. E caiu rápido o bastante para que boa parte do que se escreveu sobre IA até 2022 esteja hoje descrevendo um mundo que não existe mais. Este texto refaz a linha do tempo até o presente e separa o que mudou do que continua valendo.

A linha do tempo em quatro fases

Fase Como o sistema “sabia” Marco Escopo de um modelo
Busca e regras Humano escrevia as regras; a máquina calculava possibilidades Deep Blue vence Kasparov (1997) Uma tarefa, um domínio
Aprendizado O modelo extraía padrões de dados rotulados ou de auto-jogo AlphaGo vence Lee Sedol (2016) Uma tarefa, um domínio
Modelos de fundação Pré-treino em grande escala, depois adaptação por instrução Transformer (2017), ChatGPT (2022) Muitas tarefas, um modelo
Agentes O modelo decide quando chamar ferramenta, buscar dado e repetir Uso de ferramentas em produção (2023 em diante) Tarefas em sequência, com estado

Fase 1: força bruta e regras escritas à mão

O Deep Blue, que venceu Garry Kasparov em maio de 1997, é o exemplo canônico, e vale corrigir uma confusão comum: ele não aprendia nada. Combinava busca em árvore com uma função de avaliação ajustada à mão por enxadristas, e avaliava algo da ordem de centenas de milhões de posições por segundo. A inteligência estava na regra escrita pelo humano; a máquina contribuía com velocidade.

Isso define o teto da fase: sistemas assim são excelentes onde as regras são conhecidas e enumeráveis, e inúteis onde ninguém sabe escrever a regra. Ninguém consegue descrever em regras explícitas o que faz um rosto ser aquele rosto.

Fase 2: aprender a partir dos dados

A virada foi deixar o padrão emergir dos dados em vez de escrevê-lo. É o que machine learning faz, e o que o deep learning ampliou empilhando camadas de rede neural para aprender representações cada vez mais abstratas.

O AlphaGo, que venceu Lee Sedol em março de 2016, mostrou os dois mecanismos juntos: rede neural para avaliar posições, busca para explorar jogadas, e reforço por auto-jogo para melhorar sem professor humano. O documentário sobre a partida está disponível no YouTube e continua sendo a melhor introdução visual ao assunto.

O vídeo abaixo mostra o mesmo princípio num cenário mais legível: agentes aprendendo a jogar esconde-esconde e descobrindo, sozinhos, estratégias que ninguém programou.

agentes de IA jogando esconde-esconde e descobrindo estratégias que não foram programadas

Nesta fase, o escopo continuava estreito. Cada modelo tinha um domínio de validade definido pelos dados de treino, e essa era a limitação que definia o planejamento de qualquer projeto de IA. Também é a fase em que se popularizaram os tipos de inteligência artificial e as famílias de modelos que ainda hoje aparecem em material introdutório, quase sempre sem a fase seguinte.

Fase 3: transformers e modelos de fundação

Em junho de 2017, um artigo do Google chamado Attention Is All You Need apresentou o transformer, uma arquitetura que processa a sequência inteira em paralelo, ponderando a relevância de cada parte em relação às outras. O ganho prático foi permitir treinar em escala muito maior, e a consequência foi inesperada: modelos treinados apenas para prever o próximo pedaço de texto passaram a resolver tarefas para as quais ninguém os treinou.

É daí que vêm os LLMs (large language models, ou grandes modelos de linguagem) e o termo modelo de fundação: um modelo pré-treinado em escala, que serve de base para muitos usos em vez de um só. O processamento de linguagem natural, que era uma especialidade com modelos próprios, foi absorvido por eles. O lançamento do ChatGPT, em 30 de novembro de 2022, foi o momento em que isso saiu do laboratório.

Duas consequências importam mais que a novidade técnica:

  • O escopo deixou de ser estreito. O mesmo modelo traduz, resume, classifica, escreve código e extrai dado de documento. A pergunta “qual modelo serve para esta tarefa?” virou “este modelo já resolve, ou preciso adaptá-lo?”.
  • A conta inverteu. Treinar um modelo de fronteira saiu da faixa de qualquer organização que não seja um laboratório de IA. Usar um, por API, passou a custar frações de centavo por chamada. Antes você investia em treino e o uso era barato; agora o treino é proibitivo e o uso é uma linha de custo variável.

Sobre a segunda: é o ponto em que quase todo material anterior a 2022 erra de forma que muda a decisão. Textos daquela época recomendavam avaliar a capacidade de treinar modelos próprios. Hoje a decisão relevante é outra, e tem nome: construir, comprar ou customizar. A adaptação de um modelo de fundação, por instrução, por busca em base própria ou por ajuste fino, cobre a maioria dos casos empresariais sem treinar nada de zero. Do lado da criação de conteúdo e imagem, é a mesma fase que produziu a IA generativa, com exemplos que já são rotina.

Fase 4: modelos que usam ferramentas

A fase atual não vem de um modelo maior, vem de dar ao modelo a capacidade de agir: consultar uma base, chamar uma API, executar um passo, ler o resultado e decidir o próximo. Isso transforma uma resposta única num processo com vários passos e estado, e é o que se chama de IA agêntica.

A diferença prática para quem decide: nas fases anteriores, a IA entregava uma previsão e um humano executava. Aqui ela executa parte do processo. Isso muda o que precisa ser verificado, porque o erro deixa de ser uma resposta ruim numa tela e passa a ser uma ação errada num sistema.

O que não mudou: os dados continuam decidindo

A parte mais durável do assunto é também a mais antiga. Um modelo reproduz o que está nos dados, incluindo o que ninguém queria que ele reproduzisse. Um exercício que fizemos em fevereiro de 2021 continua ilustrando isso bem: buscar “cientistas famosos” no Google Imagens.

Resultado do Google Imagens para cientistas famosos em fevereiro de 2021, com apenas uma mulher entre as dez primeiras imagens
captura de fevereiro de 2021: entre as dez primeiras, a única mulher é Marie Curie

Entre as dez primeiras imagens, a única mulher era Marie Curie. Não por falta de outras: buscando “cientistas famosas”, no feminino, elas aparecem.

Resultado do Google Imagens para cientistas famosas em fevereiro de 2021, com diversas mulheres cientistas
captura de fevereiro de 2021: a mesma busca no feminino devolve o que a primeira não devolveu

O problema não estava no algoritmo, estava no material com que ele aprendeu: um passado em que mulheres não eram registradas como cientistas. Os resultados dessas buscas mudaram desde então, e é justamente esse o ponto: o que o modelo devolve acompanha o que os dados dizem, não o que é verdade.

Com modelos de fundação isso não diminuiu, mudou de lugar. O viés agora vem de um corpus de treino que ninguém da sua empresa selecionou, e chega junto com a capacidade. Some-se a isso que o dado que você acrescenta continua sujeito à LGPD, e que a regulamentação avançou: o AI Act europeu entrou em vigor em agosto de 2024, com obrigações escalonadas por nível de risco ao longo dos anos seguintes, e serve de referência mesmo para quem não opera na Europa.

O que isso muda na hora de aplicar

A ordem das perguntas mudou junto com a tecnologia. O que funciona hoje:

  • Comece pela tarefa, não pela ferramenta. Procure trabalho repetitivo, de alto volume e baixo valor por unidade, que produza texto ou dado estruturado. É onde o retorno aparece primeiro.
  • Assuma que existe modelo pronto. A pergunta não é mais se dá para fazer, é se vale integrar e quem responde quando errar.
  • Trate o custo como variável. Custo por chamada muda o cálculo: o projeto não termina no lançamento, ele passa a ter conta mensal proporcional ao uso. Vale fechar a conta com o método de ROI de IA antes de aprovar.
  • Defina a verificação antes de ligar. Quanto mais o sistema age sozinho, mais isso importa. É a diferença entre piloto que vira produção e piloto que vira prejuízo, tema de por que a IA falha nas empresas.
  • Corte o escopo do primeiro caso. Um caso estreito e verificável ensina mais que uma plataforma ampla, e o método de corte é o mesmo de qualquer produto: definir escopo.

Se você está começando pelo começo, vale ler o que é inteligência artificial antes desta linha do tempo. O resumo dela é curto: a IA parou de ser um especialista contratado para uma tarefa e passou a ser uma capacidade de propósito geral que se adapta. Isso torna a adoção mais barata e a supervisão mais importante, na mesma medida.

Perguntas frequentes

Quais são as fases da evolução da inteligência artificial?

Quatro. Busca e regras escritas à mão, cujo marco é o Deep Blue vencendo Kasparov em 1997. Aprendizado a partir de dados, com machine learning e deep learning, cujo marco é o AlphaGo vencendo Lee Sedol em 2016. Modelos de fundação, a partir do transformer em 2017 e do ChatGPT em 2022. E agentes, de 2023 em diante, quando o modelo passa a usar ferramentas e executar passos.

O Deep Blue usava inteligência artificial ou machine learning?

Não usava machine learning. O Deep Blue combinava busca em árvore com uma função de avaliação ajustada à mão por enxadristas, e avaliava centenas de milhões de posições por segundo. Ele não aprendia: a inteligência estava na regra escrita pelo humano, e a máquina contribuía com velocidade. Ele venceu Garry Kasparov em maio de 1997.

O que é um modelo de fundação?

É um modelo pré-treinado em grande escala que serve de base para muitos usos diferentes, em vez de ser treinado para uma tarefa só. O mesmo modelo traduz, resume, classifica, escreve código e extrai dado de documento. Isso quebrou a regra anterior de que cada modelo tinha um domínio de validade estreito, definido pelos dados de treino.

O que é um LLM?

LLM é a sigla de large language model, ou grande modelo de linguagem: um modelo de fundação treinado em grande escala sobre texto, capaz de resolver tarefas para as quais não foi especificamente treinado. Eles surgiram da arquitetura transformer, apresentada em 2017, e chegaram ao uso geral com o ChatGPT em novembro de 2022.

O que é o transformer e por que ele importa?

O transformer é a arquitetura apresentada em junho de 2017 no artigo Attention Is All You Need, do Google. Ele processa a sequência inteira em paralelo, ponderando a relevância de cada parte em relação às outras, o que permitiu treinar em escala muito maior. A consequência inesperada foi que modelos treinados apenas para prever o próximo pedaço de texto passaram a resolver tarefas para as quais ninguém os treinou.

Ainda é verdade que cada modelo de IA serve para uma tarefa só?

Não, e essa é a mudança mais importante desde 2022. Até os modelos de fundação, cada modelo tinha domínio de validade estreito, definido pelos dados de treino, e essa limitação organizava o planejamento de qualquer projeto de IA. Hoje o mesmo modelo cobre muitas tarefas, e a pergunta deixou de ser qual modelo serve para esta tarefa e passou a ser se o modelo já resolve ou se precisa de adaptação.

Vale a pena treinar um modelo próprio?

Para a maioria das empresas, não. A conta inverteu: treinar um modelo de fronteira saiu da faixa de qualquer organização que não seja um laboratório de IA, enquanto usar um por API custa frações de centavo por chamada. A decisão relevante hoje é entre construir, comprar ou customizar, e a adaptação de um modelo de fundação por instrução, por busca em base própria ou por ajuste fino cobre a maioria dos casos empresariais sem treinar nada de zero.

O que é IA agêntica?

É quando o modelo deixa de apenas responder e passa a agir: consultar uma base, chamar uma API, executar um passo, ler o resultado e decidir o próximo. Isso transforma uma resposta única num processo com vários passos e estado. A diferença prática é que o erro deixa de ser uma resposta ruim numa tela e passa a ser uma ação errada num sistema, o que muda o que precisa ser verificado.

O problema de viés nos dados foi resolvido pelos modelos novos?

Não, mudou de lugar. O modelo reproduz o que está nos dados, incluindo o que ninguém queria que ele reproduzisse. Com modelos de fundação, o viés passa a vir de um corpus de treino que ninguém da sua empresa selecionou, e chega junto com a capacidade. O dado que você acrescenta continua sujeito à LGPD, e o AI Act europeu, em vigor desde agosto de 2024, serve de referência de risco mesmo para quem não opera na Europa.

Por onde começar a aplicar IA no negócio hoje?

Pela tarefa, não pela ferramenta: procure trabalho repetitivo, de alto volume e baixo valor por unidade, que produza texto ou dado estruturado. Assuma que já existe modelo pronto e pergunte se vale integrar e quem responde quando errar. Trate o custo como variável, porque a conta é proporcional ao uso. Defina a verificação antes de ligar. E corte o escopo do primeiro caso: um caso estreito e verificável ensina mais que uma plataforma ampla.