Listar as maiores startups do Brasil por tamanho envelhece rápido e ensina pouco. O que continua verdadeiro por muito tempo é o padrão: quase todas cresceram resolvendo um atrito específico do mercado brasileiro que as empresas grandes já tinham decidido tolerar.

Este texto mostra o que elas têm em comum, os casos mais citados pelo problema que cada um resolveu, o que não explica o sucesso delas, e o que dá e o que não dá para copiar.

O que elas têm em comum

  1. Um atrito conhecido e tolerado. Fila de banco, taxa de cartão, burocracia de aluguel, entrega em cidade grande. Nada disso era segredo: era problema que todo mundo reclamava e ninguém resolvia.
  2. Um mercado grande e mal servido, em que o cliente não tinha alternativa boa e não escolhia por gosto, escolhia por falta de opção.
  3. Foco em um recorte estreito no começo. Um produto, um público, uma cidade. A expansão veio depois, e não junto.
  4. Operação como parte do produto. No Brasil, quem resolveu logística, pagamento e atendimento junto com o software venceu quem só fez software.
  5. Anos de execução chata. A parte que não aparece na história é o tempo entre a ideia e o momento em que o modelo funcionou.

Note que nenhum dos cinco é tecnologia. As características que definem uma startup, e as que só parecem definir, estão em características de uma startup.

Os casos, pelo problema resolvido

A lista muda de posição a cada rodada de investimento; o problema que cada uma atacou não muda:

Empresa O atrito que atacou
Nubank tarifa, fila e burocracia para ter um cartão e uma conta
iFood pedir comida por telefone, sem ver menu, preço nem prazo
Stone e PagSeguro pequeno comerciante sem acesso a máquina de cartão com taxa justa
QuintoAndar fiador, seguro-fiança e papelada para alugar um imóvel
Loggi entrega urbana rápida para quem não tinha frota
Creditas crédito caro para quem tinha bem para dar em garantia
Hotmart vender produto digital sem montar estrutura de pagamento e entrega
VTEX loja online de grande varejista, que antes exigia projeto próprio
RD Station automação de marketing em português, para empresa média
Wellhub benefício de academia que empresa quer oferecer e não sabe operar

Lendo a coluna da direita de cima a baixo, aparece o padrão: nenhuma criou uma necessidade nova. Todas removeram um obstáculo entre a pessoa e algo que ela já queria fazer.

O que não explica o sucesso

  • Ideia inédita. Banco digital, entrega de comida e aluguel sem fiador existiam fora do Brasil. O mérito foi de execução local, não de originalidade.
  • Tecnologia superior. Nenhuma delas ganhou por ter um algoritmo que ninguém mais tinha.
  • Investimento grande no começo. O capital veio depois de haver sinal de que o modelo funcionava, e não antes.
  • Fundador genial. A história é contada assim depois; durante, foi decisão sob incerteza com muita tentativa descartada.
  • Timing sortudo. Existe timing, e ele explica por que algumas cresceram mais rápido; não explica por que outras no mesmo momento não sobreviveram.

O que é um unicórnio, e por que importa pouco

Unicórnio é a startup que atinge um valor de mercado de um bilhão de dólares em uma rodada de investimento. O Brasil tem algumas, e a palavra virou sinônimo de sucesso, o que atrapalha mais que ajuda por três motivos:

  • É valor de rodada, não de caixa. O número vem do preço que um investidor aceitou pagar por uma fatia, e não de lucro nem de receita. Ele sobe e desce com o humor do mercado.
  • Não diz nada sobre saúde da operação. Existe unicórnio com prejuízo grande e empresa lucrativa que nunca chegou perto do título.
  • Distorce a meta. Perseguir avaliação alta empurra decisões de crescimento a qualquer custo, que é o oposto do que sustenta um negócio quando o capital fica caro.

Para quem está construindo, existe um número muito mais útil: quantos meses de assinatura pagam o custo de trazer um cliente. Ele cabe em uma planilha e decide se a empresa existe no ano seguinte, o que nenhum título faz.

O que dá e o que não dá para copiar

Dá para copiar: o método de escolher um atrito específico e reclamado; começar com recorte estreito; tratar operação como parte do produto; medir retenção antes de escalar; e o hábito de decidir com número em vez de opinião, com as contas em taxa de crescimento.

Não dá para copiar: o momento de mercado em que elas nasceram; o acesso a capital que veio depois da tração; a folga para operar anos com prejuízo; e a posição de primeira empresa a resolver aquele problema, que já não está disponível para quem chega hoje no mesmo mercado.

A conclusão prática incomoda um pouco: copiar o modelo de negócio de um caso conhecido é a estratégia com menor chance de dar certo, porque a vantagem dele não estava no modelo, estava em ter chegado primeiro com execução boa. As práticas que substituem a cópia estão em startup enxuta.

O que a lista esconde

Toda lista de maiores startups é uma lista de sobreviventes. Para cada empresa nela, dezenas atacaram o mesmo problema, com times parecidos, e fecharam. Ler apenas os casos que deram certo produz duas conclusões erradas: que o caminho estava claro, e que as decisões tomadas foram as certas por serem as que sobraram.

O que a lista também esconde é o tempo. Entre a fundação e o momento em que a empresa virou nome conhecido, passaram anos de operação sem holofote, com mudança de rumo, produto descartado e público trocado. Essa é a parte replicável da história, e é justamente a que não é contada.

O que aprender se está começando

  1. Procure o atrito que as pessoas já reclamam, em um mercado que você conhece de perto. Acesso a quem sofre o problema é a vantagem mais barata que existe.
  2. Escolha um recorte estreito de propósito. Uma cidade, um segmento, um caso de uso.
  3. Resolva a operação, não só o software. No Brasil é frequentemente aí que está a diferença.
  4. Meça se o cliente volta antes de gastar em aquisição.
  5. Decida a forma de cobrar cedo, com os caminhos de modelos de monetização digital e a mecânica de receita recorrente em modelo de negócio SaaS.
  6. Aceite que vai demorar, e organize a vida financeira para isso.

A sequência completa de tirar isso do papel está em como criar uma startup. E o resumo de tudo caberia em uma frase: as maiores startups do Brasil não descobriram um problema novo, elas se recusaram a aceitar um problema antigo.

Perguntas frequentes

Quais são as maiores startups do Brasil?

As mais citadas são Nubank, iFood, Stone, PagSeguro, QuintoAndar, Loggi, Creditas, Hotmart, VTEX, RD Station e Wellhub. A posição na lista muda a cada rodada de investimento, mas o atrito que cada uma atacou não muda: tarifa e burocracia bancária, pedido de comida por telefone, taxa de cartão para o pequeno lojista, fiador para alugar, entrega urbana sem frota, crédito caro com garantia.

O que as maiores startups do Brasil têm em comum?

Cinco coisas: atacaram um atrito conhecido e tolerado, do tipo que todo mundo reclamava e ninguém resolvia; escolheram mercado grande e mal servido, em que o cliente não tinha alternativa boa; começaram com recorte estreito, de um produto, um público, uma cidade; trataram operação como parte do produto; e passaram anos em execução chata antes do modelo funcionar. Nenhuma das cinco é tecnologia.

O que é um unicórnio?

É a startup que atinge valor de mercado de um bilhão de dólares em uma rodada de investimento. O título importa menos do que parece: é valor de rodada e não de caixa, sobe e desce com o humor do mercado, não diz nada sobre a saúde da operação e distorce a meta, empurrando decisões de crescimento a qualquer custo. Um número mais útil é quantos meses de assinatura pagam o custo de trazer um cliente.

O que NÃO explica o sucesso dessas startups?

Ideia inédita, já que banco digital, entrega de comida e aluguel sem fiador existiam fora do Brasil e o mérito foi de execução local. Tecnologia superior, porque nenhuma ganhou por um algoritmo exclusivo. Investimento grande no começo, que veio depois da tração. Fundador genial, narrativa construída depois. E timing sortudo, que explica velocidade e não sobrevivência, já que outras no mesmo momento não sobreviveram.

O que dá para copiar das grandes startups?

O método de escolher um atrito específico e já reclamado; começar com recorte estreito; tratar operação como parte do produto; medir retenção antes de escalar; e o hábito de decidir com número em vez de opinião. O que não dá para copiar é o momento de mercado em que nasceram, o acesso a capital que veio depois da tração, a folga para operar anos no prejuízo e a posição de primeira a resolver aquele problema.

Copiar um modelo de negócio que deu certo funciona?

É a estratégia com menor chance de dar certo, porque a vantagem daquele caso não estava no modelo: estava em ter chegado primeiro com execução boa, e essa posição já não está disponível. O que substitui a cópia é procurar um atrito ainda tolerado em um mercado que você conhece de perto, e testar rápido se alguém paga para resolvê-lo.

O que a lista de maiores startups esconde?

Que é uma lista de sobreviventes: para cada empresa nela, dezenas atacaram o mesmo problema com times parecidos e fecharam. Ler só os casos que deram certo produz duas conclusões erradas, de que o caminho estava claro e de que as decisões tomadas foram certas por serem as que sobraram. E esconde o tempo: anos de operação sem holofote, com mudança de rumo e produto descartado.

Por que tantas startups brasileiras são de serviço financeiro?

Porque o atrito era grande e visível: tarifa alta, fila, burocracia, crédito caro e acesso restrito a maquininha de cartão. Mercado grande, cliente insatisfeito e alternativa ruim é exatamente a combinação que uma startup precisa. O mesmo raciocínio explica logística e imóveis, que são os outros dois setores brasileiros com atrito antigo e tolerado.

O que aprender dessas histórias se estou começando?

Procure o atrito que as pessoas já reclamam em um mercado que você conhece de perto, porque acesso a quem sofre o problema é a vantagem mais barata que existe. Escolha um recorte estreito de propósito. Resolva a operação, e não só o software. Meça se o cliente volta antes de gastar em aquisição. Decida cedo a forma de cobrar. E aceite que vai demorar, organizando a vida financeira para isso.

Quanto tempo essas startups levaram para crescer?

Anos, e essa é a parte omitida das histórias. Entre a fundação e o momento em que a empresa virou nome conhecido houve mudança de rumo, produto descartado e público trocado, sem holofote. É justamente essa a fase replicável: quem espera resultado em meses costuma abandonar exatamente no ponto em que os casos conhecidos ainda estavam procurando o modelo.