Qualidade de dados: como ter números em que você confia

Neto Concon13 min de leitura

As seis dimensões da qualidade de dados, exatidão, completude, consistência, atualidade, unicidade e validade, conferidas na entrada antes de chegar ao número da diretoria

Qualidade de dados é o quanto os dados da empresa estão corretos, completos, consistentes entre sistemas e atualizados a ponto de sustentar uma decisão. Dado de qualidade é o que permite à diretoria olhar um número e agir, sem antes discutir de onde ele veio.

O sintoma da falta de qualidade aparece na reunião: quando alguém pergunta por que o número é esse, a resposta leva dois dias e três pessoas. Este guia mostra as dimensões da qualidade de dados, como medir e manter, as checagens que evitam o número errado, as ferramentas de governança e qualidade de dados (e quando a empresa média precisa delas) e o que muda quando o destino do dado é a IA.

As dimensões da qualidade de dados

Qualidade não é um atributo só. As referências da área, como o guia da DAMA, organizam a qualidade em dimensões, e as seis mais usadas cobrem quase todos os problemas de uma empresa de médio porte:

Dimensão Pergunta que responde Exemplo na empresa média
Exatidão O dado reflete a realidade? O custo do produto no ERP é o da última compra, ou o de dois anos atrás que ninguém atualizou?
Completude Os campos necessários estão preenchidos? Pedidos sem o canal de venda preenchido, que somem de qualquer análise de margem por canal
Consistência O mesmo dado tem o mesmo valor em todos os sistemas? O cliente com um limite de crédito no CRM e outro no ERP
Atualidade O dado está atualizado a tempo de decidir? O estoque do painel que mostra a posição de ontem à noite, quando a decisão é de agora
Unicidade Cada coisa aparece uma vez só? O mesmo fornecedor cadastrado três vezes, com grafias diferentes, dividindo o histórico de compras
Validade O dado obedece às regras e formatos? Desconto acima de 100%, data de entrega antes da data do pedido, CNPJ com dígito errado

Na prática, a empresa não precisa medir as seis em todos os dados. Basta medir as que afetam os indicadores que a diretoria usa para decidir, começando pelos cadastros que os alimentam: clientes, produtos e fornecedores.

As checagens que evitam o número errado

Cinco checagens resolvem a maior parte dos problemas e nenhuma exige ferramenta: todas se respondem com consulta simples sobre a base que já existe.

  1. Completude. Que parte dos registros tem preenchido o campo que o indicador usa. Se o campo central está vazio em boa parte da base, o primeiro trabalho é de preenchimento e de regra de entrada, não de análise.
  2. Duplicidade. Quantas vezes o mesmo cliente ou fornecedor aparece com grafias diferentes. Cadastro duplicado infla contagem e destrói qualquer cálculo por cliente.
  3. Consistência de unidade. Valores em moedas diferentes, pesos em unidades diferentes, datas em formatos diferentes. É o erro mais silencioso da lista.
  4. Coerência temporal. A data registrada é a do fato ou a do lançamento no sistema. Quando as duas se misturam, toda análise de prazo fica errada.
  5. Valores impossíveis. Prazo negativo, venda em data futura, quantidade com sinal trocado. Muitos deles indicam entrada manual sem validação na origem.

Como medir e manter a qualidade

Medir é transformar as checagens em números acompanhados: a parte da base com o campo central preenchido, a quantidade de cadastros duplicados, as divergências entre CRM e ERP. Esses números entram no painel de quem cuida do dado, com a mesma lógica de qualquer indicador. Manter exige três coisas:

  • Validação na entrada, que é melhor que limpeza depois. Barrar o dado errado no momento em que ele é digitado custa muito menos do que encontrá-lo no relatório e corrigir o histórico. Na SISVAR, 27 regras de validação passaram a conferir o dado na entrada, antes que o erro chegasse ao número da diretoria. Limpeza do histórico é trabalho separado, e só compensa nos indicadores que a empresa usa para decidir.
  • Dono do dado. Cada base de cadastro tem um guardião de negócio, que responde pela qualidade do que a sua área alimenta, e cada indicador tem um dono, que responde pela definição. Sem dono, a divergência vira reunião recorrente e nunca vira correção.
  • Trilha das alterações. Quem mudou o quê, quando e por quê, no dado e na definição. É o que permite explicar por que um número mudou, em minutos e não em dois dias, e o que permite auditar.

Definir o significado antes de medir

Esta é a etapa que parece burocrática e é a que decide o resultado. Para cada informação da lista, é preciso uma frase escrita que qualquer pessoa da empresa leia e aplique do mesmo jeito.

“Cliente ativo” não serve. “Cliente com pelo menos uma compra faturada nos últimos 180 dias, excluindo devoluções integrais” serve. A diferença entre as duas é a diferença entre um número que sustenta decisão e um número que gera reunião.

Vale escrever as definições em um único lugar acessível, com data e responsável. Quando a definição muda, o que muda junto é a série histórica, e sem registro ninguém consegue explicar por que o indicador saltou. Esse é o miolo do que se chama governança de dados, e é pré-requisito de IA pelo mesmo motivo que é pré-requisito de painel: modelo nenhum resolve ambiguidade de definição.

Ferramentas de governança e qualidade de dados

As ferramentas se dividem em três categorias, e a empresa de médio porte muitas vezes não precisa de nenhuma no começo: as checagens por consulta, a validação no sistema de origem e um dicionário de indicadores bem mantido resolvem a maior parte dos problemas.

Categoria O que faz Exemplos Quando a empresa média precisa
Catálogo de dados Registra quais dados existem, onde estão, o que significam, quem é o dono e de onde vêm OpenMetadata (código aberto), Microsoft Purview, Collibra Quando são muitas fontes e muita gente perguntando o que cada campo significa; antes disso, um dicionário bem mantido resolve
Testes e monitoramento Roda regras de qualidade automaticamente a cada carga e avisa quando algo sai do esperado dbt (com testes na transformação), Great Expectations (código aberto) Quando já existe uma camada de dados centralizada, como um data warehouse, alimentando os painéis
Cadastro mestre Mantém uma versão única e correta de clientes, produtos e fornecedores para todos os sistemas Módulos de dados mestres dos grandes fornecedores de ERP e plataformas dedicadas Quando vários sistemas criam e alteram os mesmos cadastros e a duplicidade virou problema crônico

A ordem que funciona é a inversa da que o mercado vende: primeiro a definição e o dono, depois a validação na entrada, e só então a ferramenta, para escalar o que já funciona. Ferramenta comprada antes de existir definição cataloga a confusão com mais eficiência. Quando a camada central se justifica, o assunto é data warehouse.

Qualidade de dados antes da IA

Quando o destino do dado é a inteligência artificial, a qualidade pesa ainda mais: a IA responde com a mesma segurança usando o dado certo ou o errado. Antes de qualquer projeto, vale montar o inventário mínimo:

Antes de mexer em qualquer coisa, vale montar uma lista de uma página com quatro colunas: qual informação, em que sistema ela nasce, quem responde por ela e com que frequência ela muda. Não é documento de arquitetura, é um mapa de conversa.

O critério para entrar na lista é utilidade, não completude. Comece pelas informações que aparecem na pergunta que motivou o projeto. Se a ideia é prever demanda, entram vendas, estoque, prazo de reposição e calendário comercial. Não entram folha de pagamento e contratos, por mais organizados que estejam.

Esse inventário costuma revelar, sozinho, que o projeto não é de IA. Quando a lista mostra que a informação existe e só não está reunida, o caminho mais barato é integração de sistemas ou um painel, tratado em business intelligence para empresas. Descobrir isso na primeira semana custa uma tarde; descobrir depois da contratação custa o contrato inteiro.

Três decisões completam a preparação. O histórico necessário: para classificar texto, importam exemplos bem rotulados; para previsão, ao menos dois ciclos completos do fenômeno. O acesso: o que pode ir para qualquer serviço, o que só vai anonimizado e o que não sai da empresa, tema de LGPD e IA. E o que pode esperar: bagunça em áreas fora do primeiro caso de uso não bloqueia, e falta de data warehouse também não. O que bloqueia sempre é definição ausente e campo central em branco. Onde aplicar a IA primeiro está em IA para empresas.

Por onde seguir

Quem responde por cada número, os pilares e um modelo de política estão em governança de dados. Como uma consultoria organiza dados, painéis e IA num projeto só, em consultoria de dados, BI e IA. O painel que a diretoria usa e por que ela deixa de confiar nele, em dashboard gerencial. E quando o problema é a diretoria não confiar no número, o trabalho é o da frente de Dados e decisão da Northern, operações e tecnologia sob medida: decida com números em que você confia. Se o que a empresa organizou aqui tiver valor como produto, a pergunta passa a ser de estratégia de produto.

Perguntas frequentes

O que é qualidade de dados?

É o quanto os dados da empresa estão corretos, completos, consistentes entre sistemas e atualizados a ponto de sustentar uma decisão. Dado de qualidade é o que permite à diretoria olhar um número e agir sem antes discutir de onde ele veio. A qualidade se mede em dimensões, como exatidão, completude, consistência, atualidade, unicidade e validade. E se mantém com validação na entrada, dono do dado e trilha das alterações.

Quais são as dimensões da qualidade de dados?

As seis mais usadas são exatidão (o dado reflete a realidade), completude (os campos necessários estão preenchidos), consistência (o mesmo valor em todos os sistemas), atualidade (atualizado a tempo de decidir), unicidade (cada coisa aparece uma vez só) e validade (o dado obedece às regras e formatos). Não é preciso medir as seis em todos os dados. Basta medir as que afetam os indicadores que a diretoria usa.

Quem é responsável pela qualidade dos dados?

O negócio, não só a área de tecnologia. Cada base de cadastro tem um guardião na área que a alimenta, que responde pela qualidade do que entra, e cada indicador tem um dono, que responde pela definição. A tecnologia implementa as validações, as integrações e o controle de acesso. Quando a responsabilidade fica só com a TI, os erros de cadastro continuam nascendo na origem.

Como medir a qualidade dos dados?

Transformando as checagens em números acompanhados: a parte da base com o campo central preenchido, a quantidade de cadastros duplicados, as divergências entre sistemas, os valores impossíveis encontrados. Esses números entram num painel de quem cuida do dado e são acompanhados como qualquer indicador. Comece pelos cadastros que alimentam os indicadores da diretoria. Tudo isso se faz com consultas simples sobre a base que já existe.

Precisa de ferramenta para cuidar da qualidade de dados?

No começo, quase nunca. As checagens por consulta, a validação no sistema de origem e um dicionário de indicadores bem mantido resolvem a maior parte dos problemas da empresa média. Ferramentas de catálogo, de testes automáticos e de cadastro mestre passam a valer quando há muitas fontes, uma camada central de dados ou duplicidade crônica entre sistemas. Comprar a ferramenta antes de definir o dado só cataloga a confusão.

Qualidade de dados e governança de dados são a mesma coisa?

Não, mas andam juntas. A governança define as regras e as responsabilidades: o que cada indicador significa, quem é dono, quem acessa. A qualidade é um dos resultados que a governança busca, medido nas dimensões de exatidão, completude, consistência e as demais. Sem governança, não há quem responda pela qualidade; sem qualidade, a governança vira documento que ninguém usa.

Quais são as ferramentas de governança de dados?

Há três categorias. Catálogo de dados, como OpenMetadata, Microsoft Purview e Collibra, que registra quais dados existem, o que significam e quem é o dono. Testes e monitoramento, como dbt e Great Expectations, que rodam regras de qualidade a cada carga. E cadastro mestre, que mantém uma versão única de clientes, produtos e fornecedores. A empresa média costuma precisar delas só depois de ter definições e donos funcionando.

Por que validar na entrada é melhor que limpar depois?

Porque barrar o dado errado no momento em que é digitado custa muito menos do que encontrá-lo no relatório, descobrir de onde veio e corrigir o histórico. Limpeza resolve o passado; validação resolve o futuro. Regras simples, como campo obrigatório de verdade, formato válido e valor dentro do possível, eliminam a maior parte dos erros. Na SISVAR, 27 regras de validação passaram a conferir o dado na entrada.

Quantos dados são necessários para usar IA?

Depende do uso, e o piso é menor do que se imagina. Para classificar ou organizar texto, o volume quase não importa: importa ter exemplos bem rotulados. Para previsão, o piso prático é ter dois ciclos completos do fenômeno, então negócio com sazonalidade anual precisa de dois anos, não de dois meses com muito volume.

O que significa preparar os dados para IA?

É decidir três coisas antes de contratar ferramenta: onde cada informação nasce, o que exatamente ela significa e quem responde por ela quando diverge. Nenhuma das três é trabalho de tecnologia, e é por isso que a maioria dos projetos descobre o problema tarde, depois de já ter pago licença.

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