Gestão do conhecimento: como tirar a operação da cabeça das pessoas-chave

Neto Concon12 min de leitura

Gestão do conhecimento: o que estava na cabeça das pessoas-chave passa para o sistema que a equipe já usa

Gestão do conhecimento é o conjunto de práticas que faz o que as pessoas sabem sobre o trabalho continuar disponível para a empresa: registrado, encontrável e aplicado, mesmo quando quem sabia muda de função ou vai embora. Na prática, é tirar a operação da cabeça das pessoas-chave e colocá-la num lugar onde outros consigam usar.

Este guia explica a gestão do conhecimento nas organizações sem o vocabulário acadêmico: a diferença entre conhecimento tácito e explícito, o ciclo que transforma um no outro, um teste simples para medir o risco, as práticas que funcionam numa empresa média e por que a maioria dos sistemas de gestão do conhecimento vira um cemitério de documentos. No exemplo, uma indústria descobre que 40% das propostas dependem de uma única pessoa.

O que é gestão do conhecimento

Toda empresa com mais de dez anos tem pessoas que sabem coisas que não estão escritas em lugar nenhum. O orçamentista com vinte anos de casa sabe quanto de perda considerar em cada tipo de obra. O comprador sabe qual fornecedor atrasa em dezembro. A analista de crédito sabe quais clientes pagam atrasado mas sempre pagam. Esse saber decide prazo, custo e margem todos os dias.

A gestão do conhecimento cuida de três movimentos: capturar o que as pessoas sabem, organizar para que seja encontrado quando alguém precisar e aplicar, de preferência dentro do trabalho, sem depender de alguém lembrar de consultar. O terceiro movimento é o que mais falta, e é onde a maioria das iniciativas para.

Para uma empresa média, o objetivo é concreto: reduzir a dependência de pessoas-chave, encurtar o tempo até alguém novo trabalhar sozinho e evitar que a empresa repita o mesmo erro porque quem aprendeu com ele já saiu.

Conhecimento tácito e explícito

Conhecimento explícito Conhecimento tácito
O que é O que já está escrito ou pode ser escrito sem esforço O que a pessoa sabe fazer, mas tem dificuldade de explicar
Exemplos Tabela de preço, manual do ERP, procedimento de faturamento Quando desconfiar de um pedido, quanto de margem um cliente aceita perder, qual fornecedor ligar primeiro
Onde está Documentos, sistemas, planilhas Na experiência de quem faz
Como se transfere Lendo Fazendo junto, conversando sobre casos reais

O erro comum é tratar todo conhecimento tácito como algo que não se escreve. Boa parte dele é só conhecimento que ninguém parou para escrever. “Cliente com dois títulos vencidos há mais de 15 dias vai para à vista” parece intuição da analista de crédito, mas é uma regra. Quando é enunciada, vira uma regra de negócio que qualquer pessoa, ou o sistema, pode aplicar. O que sobra de verdadeiramente tácito é menor do que parece, e é transferido de outro jeito: com acompanhamento e revisão de casos.

O ciclo do conhecimento

O modelo mais citado é o de Nonaka e Takeuchi, conhecido pela sigla SECI. Ele descreve quatro passagens, e traduzido para a rotina de uma empresa média fica assim:

  • Socialização (tácito para tácito). O orçamentista novo senta ao lado do experiente e acompanha dez propostas. Aprende o que não está escrito.
  • Externalização (tácito para explícito). Os dois escrevem os critérios que apareceram nessas dez propostas: perda por tipo de material, margem mínima por cliente, quando pedir visita técnica.
  • Combinação (explícito para explícito). Os critérios são juntados à tabela de custos e ao histórico de obras, num lugar só.
  • Internalização (explícito para tácito). O novo orçamentista usa os critérios no dia a dia até que eles virem hábito.

A passagem que mais rende é a externalização, e é a que as empresas menos fazem, porque exige tempo da pessoa mais ocupada. É também onde o mapeamento de processos ajuda: em cada passo que depende de julgamento, ele força a pergunta “qual é o critério?”.

O teste da pessoa que sai amanhã

A forma mais rápida de saber onde o conhecimento está em risco é uma pergunta: se esta pessoa sair amanhã, o que para? Faça a pergunta para cada função crítica e anote três coisas: o que para, quanto tempo leva para alguém assumir e quanto custa esse tempo.

Imagine uma indústria de equipamentos sob encomenda que fatura R$ 140 milhões por ano. O exemplo é ilustrativo. A diretoria aplicou o teste em cinco funções:

Função O que para Tempo para alguém assumir
Orçamentista sênior 40% das propostas, as de maior valor 8 a 12 meses
Comprador de matéria-prima Negociação com os 3 maiores fornecedores 4 meses
Supervisor de produção Sequenciamento da fábrica 6 meses
Analista de crédito Liberação de pedidos de clientes com histórico irregular 3 meses
Controller Fechamento do custo por pedido 2 meses


Teste da pessoa que sai amanhã numa indústria de R$ 140 milhões: o que para e quanto tempo leva para substituir orçamentista sênior, comprador, supervisor de produção, analista de crédito e controller

O orçamentista sênior responde por propostas que somam cerca de R$ 55 milhões por ano. Sem ele, a empresa passaria meses orçando com margem de segurança maior, perdendo concorrências, ou com margem menor, perdendo dinheiro. Esse risco não aparece em nenhum balanço, e é maior que muitos que aparecem. O teste não serve para culpar ninguém. Serve para decidir onde começar.

Gestão do conhecimento na prática

Numa empresa média, cinco práticas resolvem a maior parte do problema, e nenhuma exige um projeto grande:

  1. Comece pelas funções do teste. Duas ou três pessoas-chave, não a empresa inteira. O esforço vai para onde o risco é maior.
  2. Capture com casos reais. Peça para a pessoa explicar as últimas dez decisões, não o processo em geral. Os critérios aparecem nos casos.
  3. Separe regra de procedimento. O que decide (regra de preço, de crédito, de prioridade) vira regra de negócio. O passo a passo de quem faz o quê vira padronização de processos.
  4. Registre a decisão junto do registro. Por que o desconto foi dado, por que o fornecedor foi trocado. Uma linha no próprio pedido vale mais que um relatório anual de lições aprendidas.
  5. Forme um par para cada pessoa-chave. Alguém que acompanha, revisa e assume uma parte do trabalho. É a socialização feita de propósito.

Sistema de gestão do conhecimento

Um sistema de gestão do conhecimento é a ferramenta onde o conhecimento capturado fica guardado e pode ser encontrado: uma wiki, uma base de documentos, um portal interno. A maioria vira cemitério de documentos pelo mesmo motivo. Fica fora do trabalho. Para usar, a pessoa precisa sair do ERP, abrir outra ferramenta, procurar e torcer para o documento estar atualizado. Na correria, ela pergunta para o colega. Em seis meses, ninguém atualiza mais.

O conhecimento que mais pesa no resultado de uma empresa média não é texto para ler. É regra e decisão: quanto de perda considerar, qual margem mínima aceitar, quando bloquear um pedido. O lugar mais durável para esse conhecimento é o sistema que a equipe já usa todo dia. Se a regra de perda por material está no sistema de orçamento, o orçamentista novo aplica a regra do sênior sem precisar saber que ela existe. É automação de processos com outro nome: o conhecimento deixa de ser consultado e passa a ser executado.

A wiki continua útil para o que é de fato texto: contexto, histórico de decisões, explicações de por que as coisas são como são. Mas ela não deve ser o único lugar do conhecimento crítico. Transformar critérios de pessoas-chave em regra dentro do sistema, integrado ao ERP, é o trabalho da frente Operação e margem da Northern. Às vezes a ferramenta construída para isso mostra valor além da empresa, e vale ler os critérios de ferramenta interna com potencial de produto.

Os erros que fazem o conhecimento voltar para a cabeça

  • Projeto para a empresa inteira. Mapear todo o conhecimento de todas as áreas garante que nada será terminado. Comece pelas pessoas do teste.
  • Documento sem dono. O texto envelhece e ninguém corrige. Em pouco tempo, a equipe aprende que não pode confiar nele.
  • Capturar e não aplicar. O critério do orçamentista foi escrito, mas a planilha continua igual. O conhecimento está registrado e não muda nada.
  • Pedir para a pessoa-chave escrever sozinha. Ela é a mais ocupada e a que menos enxerga o que sabe. Alguém precisa entrevistar e escrever com ela.
  • Esquecer o histórico. Regra mudada sem guardar a anterior apaga o porquê. A trilha de auditoria resolve isso dentro do sistema.

Por onde seguir

Para achar onde o conhecimento está preso no fluxo, o guia de mapeamento de processos e o modelo de mapeamento de processos. Para escrever os critérios das pessoas-chave, as regras de negócio. Para o passo a passo repetitivo, a padronização de processos. E para crescer sem que cada nova pessoa precise de um ano de convivência, escalar operações sem aumentar a equipe.

Perguntas frequentes

O que é gestão do conhecimento?

Gestão do conhecimento é o conjunto de práticas que faz o que as pessoas sabem sobre o trabalho continuar disponível para a empresa, mesmo quando quem sabia muda de função ou vai embora. Ela tem três movimentos: capturar o que as pessoas sabem, organizar para que seja encontrado e aplicar no trabalho. Numa empresa média, o objetivo é reduzir a dependência de pessoas-chave e encurtar o tempo de formação de alguém novo.

Qual a diferença entre conhecimento tácito e explícito?

Conhecimento explícito é o que já está escrito ou pode ser escrito sem esforço, como a tabela de preço e o procedimento de faturamento. Conhecimento tácito é o que a pessoa sabe fazer mas tem dificuldade de explicar, como quando desconfiar de um pedido. Boa parte do que parece tácito é só critério que ninguém escreveu, e vira regra quando alguém pergunta qual é o critério.

O que é o modelo SECI de gestão do conhecimento?

É o modelo de Nonaka e Takeuchi, com quatro passagens: socialização, quando o conhecimento passa de pessoa para pessoa fazendo junto; externalização, quando o tácito vira texto ou regra; combinação, quando conhecimentos explícitos são juntados num lugar só; e internalização, quando o que foi escrito vira hábito de quem usa. A passagem que mais rende e menos acontece é a externalização.

Como aplicar a gestão do conhecimento na prática?

Comece pelas duas ou três pessoas-chave de maior risco, não pela empresa inteira. Capture o conhecimento pedindo que expliquem decisões reais recentes. Separe o que é regra de decisão do que é procedimento. Registre o porquê das decisões no próprio pedido ou cadastro. E forme um par para cada pessoa-chave, alguém que acompanha, revisa e assume parte do trabalho.

O que é um sistema de gestão do conhecimento?

É a ferramenta onde o conhecimento capturado fica guardado e pode ser encontrado, como uma wiki, uma base de documentos ou um portal interno. A maioria vira cemitério de documentos porque fica fora do trabalho: consultar exige sair do ERP e procurar. O conhecimento crítico de uma empresa média, como regras de preço e de crédito, dura mais quando está dentro do sistema que a equipe já usa.

Como saber se a empresa depende demais de pessoas-chave?

Faça uma pergunta para cada função crítica: se esta pessoa sair amanhã, o que para? Anote o que para, quanto tempo levaria para alguém assumir e quanto custa esse tempo. Num exemplo de indústria de R$ 140 milhões, o orçamentista sênior respondia por 40% das propostas e levaria de 8 a 12 meses para ser substituído. O teste mostra onde começar.

Por que a gestão do conhecimento falha nas empresas?

Os motivos mais comuns são começar pela empresa inteira e não terminar nada, deixar documentos sem dono que envelhecem, capturar o conhecimento sem mudar o trabalho, pedir para a pessoa-chave escrever sozinha, quando ela é a mais ocupada, e mudar regras sem guardar a versão anterior. Em todos os casos, o conhecimento volta para a cabeça de quem sabia.

Gestão do conhecimento é assunto de RH?

Não só. Treinamento e cultura de compartilhar são parte dela, mas o conhecimento que mais pesa no resultado de uma empresa média é operacional: quanto de perda considerar num orçamento, qual margem mínima aceitar, quando bloquear um pedido. Esse conhecimento é responsabilidade das áreas de operação, comercial e finanças, e muitas vezes vira regra dentro do sistema.

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